[vc_single_image source=”external_link” custom_src=”https://3.bp.blogspot.com/-3GmCnqqJkzE/VqrWB34ICYI/AAAAAAAAEQk/G5fthvT_8po/s1600/CARTA%2BVERMELHA.png”]

A sexta carta é enviada por um senhorzinho muito experiente e simplista, ela provavelmente foi escrita em uma mesa de bar enquanto este senhorzinho intercalando entre cerveja, petiscos para conseguir beber mais, para conseguir comer mais.

              Hoje o que encontrei me deixou mais triste, foi uma dessas fotos antigas, com certeza não se fabricam mais hoje em dia, parece uma especie de pirâmide verde, com um furo e um lente em que dá para ver uma foto negativa, mas real, eu vi o quanto eu era moço, o quanto eu era lindo, não é me gabando não mas eu era bonito de mais, a pele branquinha, branquinha e os cabelos pretos assim como meus olhos, minha sobrancelha era grossa e todo mundo gostava de estar perto de mim, de andar comigo de falar que me conhecia, isso em uma cidade do interior vale muito sabe.

                 Continuei vivendo com pouco dinheiro e muita aparência, não me importava estar o dia inteiro sem comer se estivesse bem vestido, não me importava nada se eu estivesse em evidência a todo momento, ser o centro das atenções sabe mãe.

♝                 A senhora me avisou tanto para não seguir com a vida tão fútil assim, me disse que beleza acaba, me disse tantas coisas e eu insisti em segui esse caminho, acabei casando com uma mulher que não amava mas que me proporcionaria estar sempre em destaque, as coisas foram invertendo com o passar dos anos sabe, ela foi ficando cada dia mais linda e interessante e eu, bem eu continuava sendo o mesmo caipira bonito de sempre, ela puxava diversos assuntos comigo, tentando me tornar algo que eu não era, uma pessoa interessante, eu até gostava de conversar sabe, mas sobre assuntos simples, contar piadas e beber muito, falar bobagens que não se acrescenta em nada, ela não teria muita paciência pra essa vida vazia, continuamos seguindo essa vida medíocre em que eu estava apagando, perdendo os melhores anos da minha vida, da minha juventude apenas para aparecer como um adorno para a senhora com quem me casei, cheguei pra ela e fiz uma proposta que qualquer outra mulher teria se sentido humilhada, pedi que me desse uma boa quantia em dinheiro para que eu sumisse da vida dela, garanti que nunca mais apareceria e que ela não ousasse me procurar, falei tudo minha mãe, que embora a admirasse nunca a amei, ela com toda a frieza do mundo subiu trouxe uma maleta de jóias e me disse – Aqui, tenha uma boa viagem.

                 Devo dizer o quanto fiquei decepcionado, embora nos últimos meses estava sentido que ela me procurava bem menos na cama, desculpe falar isso não há mais ninguém que aguente os meus desabafos, não imaginei que seria assim sabe, tão frio, tão rápido.

                 No começo pensei em desistir e fazer questão de tornar a vida dela um inferno, mas a pressa de sair de lá e viver uma vida regada a todos os prazeres possíveis que o dinheiro pode proporcionar falou mais alto.

                 Quando estava várias cidades após a minha antiga casa onde abandonei minha mulher, comecei a pensar em qual o sentido da minha vida, fiquei em muitos hotéis bacanas, fiquei com mulheres lindas, não quis saber de trabalhar e meu dinheiro foi acabando, o tempo foi passando e eu fui envelhecendo bem mais rápido que alguém com um pouco de juízo. já sem expectativa e devendo até minha vida resolvi retornar e pedir ajuda, porém a viajem teve de ser por meio de caronas, comia quando dava, passei por toda a sorte de infortúnios que este tipo de trajeto pode proporcionar a alguém de aparência marginalizada, demorei cerca de quatro meses para chegar na cidade em que me perdi e mais de cinco anos pra conseguir retornar e é engraçado pois estou falando apenas de trajeto, não faço a menor ideia de quanto tempo fiquei na boêmia, provavelmente uns dez anos que pareceram uma eternidade na época e agora me parecem como um sonho, na mala apenas algumas recordações, as poucas que não consegui vender, entre elas essa foto, o que me faz retornar e passar por esta humilhação minha mãe é apenas o medo de morrer sozinho, imagina a minha surpresa quando cheguei na cidade e tudo estava diferente, todas as pessoas mudaram, eu fiquei no passado, quando cheguei a minha antiga casa me disseram que minha esposa já havia se mudado dali a muito tempo depois de receber uma exorbitante quantia de seguro que havia feito em nome do marido, que a muito tempo desaparecerá. Aquela desgraçada não me deu um quinto do que deve ter recebido, aquela horrorosa como deve estar agora, me disseram que havia feito algumas intervenções cirúrgicas e estava irreconhecível, de morena estilo amélia se tornou uma loira digna de calendários.

                 O que faço agora minha mãe, se puder ajudar de alguma forma, eu estou na vala da minha antiga casa, hoje uma mansão bem conhecida na cidade, o endereço esta no verso, sobrevivo de migalhas e esmolas, e sou absurdamente um monstro, sujo e fedorento que ninguém se aproxima pra não ser contaminado com tanta desgraça.

Terapia por carta é uma série fictícia de histórias do cotidiano onde é relatado todas as situações da vida sem hipocrisia, curta nossa pagina no Facebook e siga o blog para acompanhar as Próximas Cartas…

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